Uma viagem por algumas viagens ilustradas.
Você já ouviu falar em Psicogeografia e Teoria da Deriva? Eu conheci essa linha de pensamento alguns anos atrás pelo saudoso Anticast.
É um conceito um pouco parecido com a perspectiva francesa de flanar / flâneur: explorar a cidade sem pressa, sem rumo e sem preocupações.
Mas a psicogeografia tem um viés mais social, pois estuda os efeitos comportamentais e emocionais do ambiente urbano na vida das pessoas. E a Teoria da Deriva, formulada por Guy Debord (autor do livro A Sociedade do Espetáculo), apresenta uma técnica de exploração urbana lúdica e crítica do espaço, criando derivas (desvios) na rotina. Isso de forma bem resumida, se quiser saber mais, aconselho ouvir o episódio completo:
Uma das coisas que eu acho mais poéticas dessa abordagem é a forma como a arte e arquitetura são vistas como ferramentas de resistência política. Nos anos 50, Debord criou um Guia Psicogeográfico de Paris que reconstrói o imaginário da cidade pela lógica da cartografia afetiva, criando “colagens” no mapa a partir de uma relação mais sensível com o meio urbano.
Guia Psicogeográfico de Paris - Guy Debord, 1955 | Fonte: La Posta Foundation
Eu sou apaixonada por essa forma de observar os lugares e registrar aquilo que mexe com a gente. Meus sketchbooks estão aí para mostrar.
Eu tento trazer para os meus projetos essa consciência e sensibilidade de alguma forma. Mesmo que seja em algum detalhe, quase imperceptível para quem vê, como a escolha de alguma paisagem específica ou os personagens ilustrados que representem cada local. Inclusive acredito que trazer as cidades como personagens pode trazer um resultado muito interessante para projetos artísticos.
O filme Medianeras apresenta muito bem a cidade de Buenos Aires como uma personagem importante para a história.
Em muitos trabalhos, cada um com as suas peculiariadades, passei por esse exercício de olhar, entender e traduzir lugares em imagens. A seguir, reuni alguns projetos em que as cidades foram parte essencial da construção das minhas ilustrações:
🔺Nada mais justo do que começar trazendo a minha cidade e um projeto autoral que desenvolvi especialmente para mostrar cidades pelo mundo.
Curitiba | Cities of the world
🔺Algumas vezes preciso ilustrar lugares e eventos que não conheço pessoalmente e a pesquisa se torna minha melhor amiga. Para o livro Full Exposure, da autora Thien-Kim Lam, eu precisei ambientar o Mardi Gras, carnaval de New Orleans.
.
🔺 “New Girl Now”, segundo livro da série “The Blue Canoe Cottage”, ilustrada para Kobo Originals é ambientado no inverno de uma cidade do Canadá. A história se passa em um local fictício, inspirado no lago Muskoka. Desde a escolha das cores até o contraste e profundidade da composição, eu busquei trazer elementos que aproximassem os leitores da atmosfera da região.
🔺Nem sempre cartografia afetiva está vinculada a um ponto geográfico fixo. No começo da minha carreira, fiz esta capa que venceu o concurso Hazlo Tú de 2016, da revista Yorokobu. A principal inspiração veio das viagens de carro da minha infância, quando eu observava as estradas brasileiras pela janela.
E você, se fosse montar um mapa afetivo, quais lugares não poderiam faltar?