Bastidores do processo criativo do projeto The Midnight Taxi
Muita gente acredita que ilustrar a capa de um livro é só produzir uma imagem bonita. Na realidade, é um trabalho que envolve interpretar a história e traduzir emoções em escolhas visuais.
Nos últimos anos, especialmente em 2025, ilustrei muitas histórias, personagens e universos diferentes.
Cada projeto é único, mas seguir algumas etapas ajuda a organizar o processo. Por isso, resolvi abrir os bastidores de um desses trabalhos que realizei.
The Midnight Taxi, thriller contemporâneo publicado pela Penguin Random House, acompanha Siri, uma jovem envolvida em uma narrativa intensa de true crime, marcada por luto, conflitos de identidade e uma busca por justiça.
A seguir, compartilho as principais etapas dessa ilustração.
1. Entendendo o desafio: o briefing
O primeiro passo de todo projeto é (ou deveria ser) um bom briefing. É nesse alinhamento inicial que entendo o objetivo da capa, o público do livro, o tom da história e as expectativas da editora, além de definir formatos, prazos e requisitos técnicos.
No caso de The Midnight Taxi, a proposta era traduzir visualmente o drama atmosférico da história, equilibrando tensão, mistério e complexidade emocional com clareza narrativa.
2. Pesquisa visual e referências visuais
Com o briefing em mãos, começo a explorar thrillers contemporâneos, referências de true crime e capas de livros do gênero, observando como esses elementos ajudam a construir tensão, ritmo e atmosfera.
A partir da sugestão do cliente de usar como fundo a famosa vista de DUMBO, bairro moderno e ~painfully millennial~ na orla do Brooklyn, em Nova York, busquei referências de linguagem urbana e da cultura millennial para incorporar ao projeto.
Também entro em contato com outras linguagens visuais, como fotografia e enquadramentos cinematográficos. A ideia não é copiar estilos, mas entender caminhos possíveis e identificar o que faz sentido para a história. A partir desse mergulho inicial, organizo um moodboard que reúne as referências e ajuda a definir o clima visual do projeto.
3. Construindo o conceito criativo
O desenvolvimento da ideia central da capa precisa traduzir os temas da história em elementos visuais que comuniquem suspense, movimento e carga emocional. A partir desse conceito, desenvolvo três esquetes iniciais em preto e branco, focados em composição, perspectiva e narrativa visual, testando diferentes caminhos antes de entrar em cor ou acabamento.
Entre os elementos explorados estão a geometria urbana, a iluminação dramática e uma perspectiva mais ousada, que reforça a urgência da narrativa e a corrida de Siri contra o tempo. A partir desses estudos, um caminho é escolhido junto ao cliente como base para seguir adiante, já com ajustes iniciais e definição da direção estética.
Conceitos criativos iniciais
4. Explorando possibilidades de cor
Com o conceito definido, exploro variações de cor, criando três propostas de paleta e clima visual para a composição escolhida.
Estudo de cores
Nessa etapa, a cor reforça suspense, ritmo e a emoção da narrativa, além de ajudar a guiar o olhar dentro da imagem. A partir dessas três propostas, uma direção cromática é definida e aprovada pelo cliente para seguir com o desenvolvimento da ilustração.
5. Esboços, alinhamento e refinamento
Com a paleta e a composição escolhida, transformo o conceito em um esboço mais detalhado, ajustando enquadramento, leitura visual e hierarquia dos elementos, sempre em diálogo com o cliente.
A partir daí, entro na execução da arte, trabalhando luz, profundidade, textura e acabamento, buscando equilibrar realismo estilizado e impacto gráfico. É nessa etapa que a ilustração começa a se aproximar da versão final.
6. Desenvolvimento da ilustração final e entrega
Com a arte já estruturada, entro na fase final de desenvolvimento, refinando detalhes e fazendo pequenos ajustes a partir das rodadas de feedback. Nessa etapa, trabalho os últimos pontos de cor, contraste e acabamento, preparando a ilustração para os formatos finais.
Com tudo aprovado, organizo os arquivos para impressão e uso digital, cuidando do fechamento técnico e da entrega do material.
Projetos como esse reforçam como a ilustração editorial é um trabalho de tradução visual, em diálogo constante com a narrativa e com quem está do outro lado do processo. Quando a imagem se conecta com a narrativa, a gente até libera julgar o livro pela capa.