Será que faz sentido falarmos apenas de movimentos artísticos das Belas Artes nessa conversa?
Ao longo dos últimos anos, a forma como criamos e consumimos imagens mudou de maneira radical. Muita água ainda vai rolar (literalmente) e ainda não é possível definir o impacto desse período. Não sabemos se as novas tecnologias e inteligências artificiais vão ampliar, democratizar, uberizar ou empobrecer a ilustração. Ou tudo isso, junto e misturado.
Mas em um momento histórico de ruptura como esse, vale aquele clássico: olhar o passado para entender o futuro. Talvez a pergunta mais interessante não seja exatamente o que está mudando agora.
E sim: como a ilustração sempre mudou?
Ilustração criada em 2020 para um projeto pessoal. A carta da Torre no Tarô representa acontecimentos inesperados que desestruturam alicerces estabelecidos e remodelam a realidade estabelecida.
Existe uma tendência comum em tentar encaixar a ilustração apenas dentro da linha do tempo das Belas Artes. Como se a evolução viesse a partir de uma “tendência” estética de movimentos como impressionismo, cubismo ou barroco.
Mas as mudanças na ilustração podem ser compreendidas muito mais atreladas às transformações tecnológicas, técnicas de produção e circulação de imagem do que as correntes artísticas.
quando tudo era mato…
Vamos voltar (bastante) no tempo e analisar algumas coisas.
No período rupestre, as figuras nas cavernas já mostravam uma necessidade humana de usar imagens para representar o mundo. Ainda não existia o conceito de ilustração, mas a função social é a mesma.
Com o tempo, eu também entendi que marca autoral não é só para projeto pessoal. É fácil manter a linguagem para criar com pressão, prazo e aprovação. O cliente pode ter briefing, referências e objetivos que serão respeitados, mas ele escolheu o meu trabalho, o meu olhar e a minha forma de resolver uma imagem. Se eu deixo isso de lado, eu viro só executora de tendências.
Pinturas rupestres de Los Nukak | Parques Nacionales Naturales de Colombia | Foto: Julian Ruiz P.
Uma ilustração não precisa ser um desenho. Pode ser uma foto, colagem, gravura, infográfico e até mesmo uma imagem gerada por IA, a gente gostando ou não.
O termo ilustrador foi utilizado pela primeira vez durante a Idade Média. As iluminuras ilustravam páginas de manuscritos da época. Com muita ousadia, podemos dizer que era tipo um scrapbook ou journal medieval.
Iluminura Medieval - Marriage of Girart de Roussillon - 1450 | Imagem: reprodução
o surgimento da imprensa
Com a invenção da imprensa, a divulgação de novas ideias ganha escala e a ilustração passa por uma grande mudança de estilo. A imagem deixa de ser produzida como pintura e passa a ser pensada para reprodução gráfica, com menos cor, mais linhas e mais contraste, moldada pelas exigências para a reprodução em massa.
Frontispício | Francis Bacon - 1620 | Imagem: reprodução
Entre caixinhas conceituais
Isso não quer dizer que a ilustração não dialogue com os movimentos artísticos. Por exemplo, o francês Gustave Doré, ilustrou grandes clássicos da literatura e incorporou com força elementos do romantismo, sendo uma referência importante desse imaginário em seu tempo.
Ilustração de Gustave Doré para o clássico A Divina Comédia de Dante Alighieri
No século XIX, enquanto na academia surgiam movimentos como o impressionismo e o expressionismo, as técnicas de impressão evoluíram tanto que grandes pintores passam a atuar na ilustração e publicidade, desenvolvendo novos estilos e linguagens. A mecanização da produção de papel e técnicas de reprodução colorida permitiram maior circulação de obras. E a expansão do mercado gráfico, publicitário e editorial foi tão grande que o período ficou conhecido como a Era de Ouro da Ilustração.
Livro da Era de Ouro da Ilustração: Andersen’s Fairy Tales Part Two - Anne Anderson (1924)
Movimentos como Arts and Crafts, Art Déco e Art Nouveau tornam isso ainda mais evidente. Eles não operam apenas como desdobramentos de movimentos artísticos do circuito acadêmico, mas já surgem na interseção entre arte, design, produção e indústria.
Mais do que uma questão estética, esses movimentos respondem a transformações técnicas, sociais e de mercado.
Stramberry Thief, design têxtil de William Morris, um dos principais nomes do movimento Arts and Crafts. | Imagem: Arte Ref
Cartaz publicitário no estilo Art Nouveau para o Théâtre de la Renaissance, ilustrado por Alphonse Mucha. | Imagem: Acervo CCBB
Cartaz no estilo Art Déco para o metrô de Londres por E. McKnight Kauffer | Fonte: MoMA.
A ilustração não nasce, na maioria das vezes, como um objeto único para contemplação. Ela nasce para circular. Para dar luz a uma ideia, acompanhar uma narrativa e construir sentido.
E é por isso que as maiores transformações nessa área não vêm apenas de movimentos artísticos, mas também dos meios que tornam uma imagem possível.