É hype ou linguagem autoral?

Será que você está construindo o seu estilo criativo ou apenas seguindo tendências?

Quem nunca passou mais tempo pesquisando referências do que efetivamente criando um projeto artístico, atire o primeiro rascunho. Ter um repertório variado é fundamental para ampliar o olhar e sustentar escolhas conscientes ao longo do processo criativo. Eu abri o meu sketchbook e contei um pouco das minhas inspirações aqui no post Tudo vira semente.

O problema é quando a gente se perde dentro de uma bolha criativa e não sabe diferenciar o que é moda ditada por tendências passageiras do que é voz artística.

Manual de sobrevivência em tempos de flat

Na época em que eu comecei a trabalhar com ilustração, tudo era flat. Era uma época em que o flat design estava super em alta e a minha primeira tentativa na área foi seguir esse caminho. Não por estratégia ou identidade, mas porque eu acreditava que era isso o que as pessoas queriam ver. Passei anos emulando essa tendência e repetindo uma estética validada pelo hype e um pouco genérica, até perceber que aquilo estava me deixando cada vez mais distante de construir uma linguagem própria.

Ilustração desenvolvida para um cliente no estilo flat em um dos meus primeiros projetos como ilustradora.

Algoritmo x Marca Autoral

Quanto mais eu pesquisava no Pinterest, Behance, redes sociais e por influência de artistas que eu admirava, mais eu tinha a sensação de entrar em um túnel sem fim. E aí o algoritmo faz o que ele sabe fazer melhor: entende o que você curte e começa a mostrar mais do mesmo.

Depois de bater muita cabeça, com projetos que não iam para frente, eu arrisquei me jogar em um estilo mais realista e autoral. Um dos primeiros trabalhos que eu enxerguei a minha personalidade foi no Calendário de 2020: um projeto pessoal com ilustrações inspiradas na força dos ritmos, das cores e das mulheres do Brasil.

Logo em seguida, abracei o meu estilo, consegui um contrato de agenciamento e tudo começou a fluir melhor.

Com o tempo, eu também entendi que marca autoral não é só para projeto pessoal. É fácil manter a linguagem para criar com pressão, prazo e aprovação. O cliente pode ter briefing, referências e objetivos que serão respeitados, mas ele escolheu o meu trabalho, o meu olhar e a minha forma de resolver uma imagem. Se eu deixo isso de lado, eu viro só executora de tendências.

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Um lembrete para desligar o piloto automático

Eu realmente acredito que estar por dentro das tendências é necessário para entender o zeitgeist - espírito do tempo e entender como a cultura se manifesta nos gestos, gostos, discursos, escolhas, estéticas e comportamentos do presente. Até para decidir qual caminho você quer seguir. Mas é muito fácil confundir repertório com repetição.

E aí chega a hora de desligar o piloto automático, fechar algumas abas e voltar para o seu processo.

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Desenhar é um ofício